terça-feira, 31 de agosto de 2010

BIhete para meu fantasma

Para meu fantasma
Deixo somente um recado
Vade retro velho safado
Não me olhes de espreita
Nem tinjas as penas do alado
Pois aqui estou e tudo se ajeita
Eis que.....
Longe de ser o rei
No pobre coitado
Prometo, não me velarei

Então deixe-me aqui
Olhos, pele e ossos
Até que tudo se desintegre
Longe do moço que um dia fui
E aquém daquilo que me tornei
[Apenas um velho humorado]
Porém, se quiseres a minha alma
Eu te darei sem dó ou compaixão
Te ponhas na estrada que hás de me encontrar
Nas brasas insanas do diabo que te carregue

Óh Aurélio!

Óh admirável homem da irrepreensível gramática!
Trazemos-te em coração companheiro
Resumes-te para nós no marco de sábia erudição
Feudal senhor da obra minudenciada
Permeada de vidrilhos incandescentes
Ao nos levar triunfantes aos caminhos da perfeição

Somos-te devedores solidários
Devemos-te as exuberâncias dos termos grafados
Os “óhs” de admiração que despegados auferimos
Exclamados por amigos que nos idolatram 
Sem ti, Aurélio, seríamos nada mais que meros mortais
Contigo, Aurélio, literatos homo sapiens de nobre estirpe

Outrossim, apropriados de tua sabedoria
Teríamos Camõesa  nos lamber as botas
Coisas inalcançáveis aos ignorante de plantão 
Escória reles,  inculta,  e semi-analfabeta
Estúpidos párias que nas aberturas espasmódicas proximais ao tubo digestivo
A nos pichar de eruditos como fôssemos sobejados retalhos do século XVI

(Mal sabem eles, Aurélio: que é só ter um PeCe para ler teu dicionário On-line)

Relicário


Hoje te reencontro à meia luz
E sob os meus dedos enrugados
Que nos escombros do passado
Remexem-te lenta e docilmente
Na velha caixa de madeira de lei

E neste momento e bem mais que ontem
Flagro-te na alma da mulher apaixonada
Que murmura em manuscritos delicados
Misturados ao mais fino papel perfumado
Do teu inesquecível Chanel número cinco

E me apego neste peso do passado
Onde tudo me ofertaste, e recusei
No pouco sonho que te abrasavas
Pois no reino de fadas encantadas
Querias ser rainha e eu fosse o rei

Mas assim não foi e assim confesso
Velho, tolo e rudemente amargurado
Que à cômoda do quarto penumbrado
Revê as duras saudades transbordadas
Num melancólico relicário abandonado

O Cangaceiro devotado

Ao longe a nuvem de poeira se levanta
E em desmedida desabalada
Engolindo o pó da estrada
O cavalo traz o homem e na algibeira
A recompensa das três mortes contratadas

Gildézio Zeferino é seu nome de batismo
Sangue ruim desde menino
Atarracado e olhar de escorpião
E igualzinho à Ferreira Virgulino
Que em vida fez da morte a profissão

Vulgarmente alcunhado
De “ Devotado Lampião”
Um cangaceiro pós-moderno
Que sem pedir adiantamento ou contrato assinado
Executa o  serviço com presteza e exatidão

Mas uma coisa em Zeferino há de ser admirada:
O seu respeito e devoção à  Virgem Maria
E nisso o seu Padim Pade Ciço há dar o testemunho
Que às seis em ponto, no badalar dos sinos e dobrar joelhos
Zeferin roga com os olhos bem abertos e desconfiados
O perdão à Nossa Senhora pruma vida de tantos assassinatos

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Solitude

Solitude
Do alto da montanha e de onde estou
Não vejo nada que não seja o vale encantado
Não percebo a morte em pêsames bocejados
E nem o desvario dos homens engravatados

Do alto da montanha
E bem longe do concreto
Dos tolos hipócritas e dos desafetos
Me lambuzo no sumo dos morangos silvestres

Não preciso de carne
Não me fazem falta as prostitutas
Nem me satisfazem as inverdades
Que se acreditam ou as menos astutas
Enfim aqui no cimo nada me falta

Toco as nuvens com as pontas dos dedos
Sorvo o ar do capim mais grosseiro
E durmo tranqüilo contando estrelas
Desprendido do ator, cingindo universos,
Solidificado na paz

domingo, 29 de agosto de 2010

Desalento

O espelho que me olha intimida-me a carcaça:
Muitas vezes flagra-me permutando peles que nem cobra,
Afrontando-me na nefasta idolatria que nutro ao logro
Eu não consigo fugir, e ele, insatisfeito questiona-me
Quanta vezes sepulta o que hoje ressuscita? -
Infindáveis vezes – Diz-me o reflexo antecipando-se a mim,
Estilhaçando-me com suas verdades.


Porém o vento assopra-me e faz com que siga em frente
E eu vou mas evito olhar para trás.
Contudo, seduzido eu volto e refaço a linha da minha vida
Poderá um míope-astigmata distinguir a reta antes que se torne curva?
Assevero-me nas vistas e constato os pífios caminhos que aniquilei
A visão não se encontra tão danificada que não se dê conta
Das indiferenças com as quais sobrevivi.


Portanto algo não se situa bem neste ambiente de devastação
Então dou por falta das lágrimas que minha lâmina decepou
E visto-me dum aspecto melancólico de quem não se cabe à forma
Um sorriso cego e triste de quem não mais vê o sol dos dias carmim.
Uma agonia sem fim ver-me ali refém destas coisas que não me são gratas
Desfazendo sob o enrugado dos dedos os nós das amarras perfeitas,
Destruindo as planejadas armadilhas de tudo que eu julgava íntegro


Contudo a cada dia um sorriso há a menos em minha vida,
Eu precisava apenas ter compreendido todas as dez linhas que li.

Procuras

Procuro-me
Ache-me
Preciso ser encontrado
Não sob o sol
Pois me desagua o suor
E nem sob a lua
No clarão nem sei o que digo

Encontre-me mais embaixo
Nas profundezas
Onde torce a raiz da tamareira
Não  questione-me agora
Pois sou tão insano quanto o  trânsito
Da caótica cidade de  São Paulo

Procure-me
Não desista de mim
Talvez eu seja o arlequim
As cores das tintas nanquim
Ou mesmo um amigo de lata
Tal qual no Mágico de Oz

E se mesmo assim
Se não me achar
Procure-me em alguma mesa de bar
Não será difícil me encontrar
Em meio aos brindes dos copos
E da anarquia juvenil

E achando-me ali
Há de me flagrar  quieto
Bebendo em silêncio
E sem companhia
Num emaranhado de dúvidas
Afogado em nostalgias

Apocalypse Now

Sábia, a natureza fundiu os oceanos
numa única e inexorável imensidão azul,
fazendo desaparecer outras tonalidades
que um dia encantaram o astronauta.

Na superfície bilhões de corpos e tecnologias
bailavam isentos de vida
junto às ondas e aos ventos dos mares
como se pares fossem numa valsa de Strauss

Ele olhou para toda aquela devastação
e diante do apocalipse iminente
lavou as mãos como Pôncio Pilatos

-Tanta inteligência pra que?
perguntou-se num riso
miseravelmente incompreensível e imortal.

Despedaçado

Sou a dor
o prego no pé
o espinho nos olhos,
Sou a adaga no coração
Sou os batimentos
Os infindos amores,
e todos dissabores,
O mais louco dos atores
que sobrevivem ao alvorecer

E assim eu vivo,
respiro, suspiro
e choro
E aborto os afetos
de todos meus medos
E me surro naquilo que expurgo
No sentido que não me toca
Do cheiro de flor que não sinto
através do calvário que caminho

Deixem-me então
sangrar no próprio corte
Expor-me à toda sorte
Na esperança que o último momento
me seja consciente,
que me prume pro norte
que me vista de forte
diante o riso, da dor
e do bafejo da morte

Lúgubre

video


Transpiram os lírios nas covas profundas
onde em terras fofas e revoltas
os vermes fartar-se-ão diante o inesperado  banquete
Na cerimônia fúnebre, sob o escaldante sol do meio dia,
e a pouca distância dali
sabiás gorjeiam em cerejeiras de flores alvas,
que tentam esconder de nós
o simbolismo do intransponível muro da morte.

Nos galhos, sábios, os solitários pássaros
persistem num canto triste à medida que tudo assistem
– Sabem que o sussurro da morte somente a eles é dado ouvir –
Mas não se prendem aos murmúrios e nem à saudade,
e que as  linhas dos traços e a ausência da presença,
são meras lembranças a habitar o peito do homem
até que um dia se turvem
e se misturem  às imagens do tempo.

Sacramentado,  na terra bate-se a última pá
sob a indiferença e o displicente escarro do coveiro
- Se faz  hora de retornarmos para nossas casas -
E nesse curto trajeto de passos lentos e feições austeras
Por entre as alamedas que se cruzam fúnebres
reverenciaremos a certeza do nosso maior legado;
- Haverá um tempo que estes mesmos pássaros
gorjearão para nós no merecido dia de nossa paz -

O funeral de Aristides Narciso

O problema não esteve nas aristocráticas Linhas do rosto, no terno de riscado inglês Ou nas medidas da urna funerária. Pois se ainda houvesse vida Certamente xingaria a todos
Pois gostaria de ser enterrado, ladeado Por sonolentas rosas brancas e vermelhas Ao som do imortal e afinado par de violinos Executando uma das peça do favorito Bach
Mas nada disso ocorreu; E ele foi velado, cremado E suas cinzas postas ao vento Num empoeiramento de ramas Ante a visão pacata dos pardais
Sim! Tudo teria sido possível E seu desejo concretizado se A empáfia do seu ego, ao menos Coubesse nas medidas do caixão
Copirraiti25Out2010 Véio China©

O dia de minha morte

¨

No dia de minha morte
Não me sufoquem em terra
Nem me ardam nas chamas
Não quero vento soprando partículas
Ou cinzas me importunando os olhos

No dia de minha morte
Apenas deixem-me lá, quieto, sereno
Olhos cerrados exaurindo os silêncios
Dum cântico sacro de lamentos fartos
Sentenciando saudade em boca amiga 

No dia de minha morte
Desobriguem-me das coroas e paramentos
E removam todas flores que me contornam
Pois elas exalam perfumes de odores doces
E fracamente esses cheiros me incomodam

No dia de minha morte, talvez
As dádivas dum único e desmedido favor
Assim com as angústias revistam o caixão
Pois só eu sei que, sobreviventes de mim
Cúmplices, elas, jamais  me deixaram só

Restauração

Não te afastes de mim
Eu vivo e sobrevivo em você
Não me deixes sentir o carrego da idade
E nem me ver num velho solitário
Tragando nos balcões dos bares da cidade
Coisas que me entorpecem, fugazes

Não te apartes de mim
Necessito mais que o latejo
Ou teu sangue defecado em meu coração
Urge-me desfruir o tempo que resta
Desprendido da melancolia de camas albergadas
Liberto dos dedos enluvados que me procurem algum mal

És o derradeiro das ínfimas coisas que sobejaram
A cria que faz-me crer e perdurar no engano
De que o tempo não passa e o fardo que não pesa
É necessário mais que cristais mentirosos dissimulados em diamantes
Por isso é inevitável entregar-me a este teatro de cortinas cerzidas
Trazendo no desbotado da memória todos os atores que interpretei

Assim, quando os holofotes do palco se amesquinharem
E o carmim das luzes alumiarem as saídas laterais
Quero o inesperado tornar o meu silêncio tão soturno quanto dos demais
E o reconhecimento há de vir tímido para o júbilo deste peito ator
Depois, incandescentes ecoarão os aplausos que jamais serão meus
E sim deste garoto consentindo em mim e que me faz reviver

Auschwitz

Esfumaçou, diferente,
aroma doce, perfumado,
e o ar aspirado
nunca lhe pareceu tão suave,
tão familiar.

Era ainda pequeno,
menos de sete,
e a lágrima brotou
sem que ao menos soubesse 
o porquê.

Extremado

Dilacero-me todo,
fatias e pedaços
sensações e sentimentos
Até tornar-me pó
sob os teus olhos castanhos

Fragmentos de uma paixão

Hás de esgotar o meu silêncio até a derradeira palavra
Pois sei; ainda lês meus pensamentos

E depois desse momento
Tudo há de ser como no instante em que te vi
Apenas a linda garota de olhos negros
Que me enredou os pensamentos
Desassossegou meus momentos
E abriu fendas e ferimentos
Em alguém que não sabia o que era dor

Amargura

Ah se eu pudesse
Voar tão alto como o condor
Tornar-me diminuta vírgula
Apenas uma breve referência
Um ponto negro
Cravado no universo mesclado
De azul e branco

Ah se eu pudesse
Me tornar invisível
De alma e de corpo
Não sentir nem padecer
Naquilo que se transforma em dor
Que que fere a alma
E me afasta de Deus

Ah se eu pudesse escolher
Me fazer voltar
E ouvir
Os murmúrios de minha mãe
Num momento que não era meu
E no sêmem jorrado de meu pai
Não ser o mais forte
À vingar

TERREMOTO

Tremem, tremem muito
Tremem ruas, prédios, viadutos
Tremem em seres sãos mais que em loucos

Tremem nos concretos das fendas cicatrizadas
Tremem nos poetas nas feridas dilaceradas
Tremem nos notívagos zumbis das diabólicas madrugadas

Tremem, tremem naqueles que nos supoem eternos
Tremem no Chile, tremem no Haiti
Tremem na infeliz doença dos velhos parkinsonianos

Tremem nos aconchegos dos nossos lares
Tremem nos santos bêbados de todos os bares
Tremem na ineficiência dos homens incapazes

De acreditar
o quanto o desgosto da divindade
pode deixar o planeta tremer

Sou poeta!

Os Anarfas encefálicos
Nesse país sem dentes
Os Encefálicos sem dentes
Nesse país de anarfas
Os Anarfas sem dentes
Nesse país encefálico

Mas que porra quer dizer isso
Xará?

Eu que sei?
Sou apenas um poeta!
Vá se foder!

Os encéfalos dos poetas
São banguelas
Os ignorantes desses país
Morrem na Ipiranga com São João
Atropelados por coletivos
Na contramão da nação

Como que é?
Nada, porra!
Vá se foder!
Te falei que sou poeta!

Ah é mesmo
Então deixa quieto!

Torpor

Minha vida se passa num Bar
onde recuso-me a beber
no copo:
Tornam-se frios os lábios
que tocam o vidro

E o riso ébrio e fácil
que me entorpece a carne
se esquece da alma
que vagueia insone e insolente
pelos cantos do Bar

E é por ela que não bebo no copo
Trago no gargalo
Levantando a garrafa num brinde:
Durma querida!
Durma e embebede-me rápido

Olhos negros

Gosto destes teus sorrisos
Que desnudam dentes
Alvos e perfeitos
Trazendo nos lábios
O despido da alma

Gosto destes teus olhos negros
Que me olham no dentro
No centro, no núcleo do cerne
Olhos que devastam meus mistérios
E solidificam verdades 

Gosto dos teus toques em meu corpo
Desobristuindo poros
Indo tão profundos
Tornando-me criança
Dona de mundo

Amigo de Bar

Amigo, eu preciso celebrar algo
Porém, jamais inusitado, tenha certeza
Quero celebrar a nossa amizade
E o carinho dos teus olhos sorridentes
Celebrar o fato de estarmos aqui depois de tanto tempo
Nos frios lábios da faminta madrugada
Ladeados por bebidas e um incauto frango à passarinho
Com molho tártaro e torradas de pão de alho

É inadiável que celebre algo
Celebrar toda tristeza que ajudaste a esvair de mim
A cada sorriso espocado em minha frente
Sorrisos que eram teus, mas que me acariciavam, consolavam
Preciso celebrar este momento com cervejas e caipiras de vodka
E com eles toda a liberdade de que me deste de sorrir ou de se lamentar
Celebrar as minhas falas impróprias, o tudo a ver, o nada a ver
Ruminados ébrios, mas que jamais constituíram agressão para teus ouvidos

Hoje eu quero, preciso e hei de celebrar algo
Celebrar cada uma das minhas gargalhadas que te pareceu não fazer sentido
E cada sentimento meu que parece não ter te havido
Celebrar o fato de estar comigo em tantas outras primeiras horas das manhãs
Acolhendo o sono duma metrópole que jamais dorme
Vista por nós com olhos ébrios e por lixeiros que ganham o seu pão
E é na solidão de outras tantas pessoas que nestas horas caçam seus divertimentos
Que ergo o brinde e celebro a você meu querido e inesquecível amigo de Bar

sábado, 28 de agosto de 2010

Escadarias para o paraíso

Surpreso, acordo sobressaltado as quatro da manhã,
Acendo todas as luzes, ouço e descubro que
“Stairway To Heaven” ainda me fragiliza.
Percebo que a canção insinua que algo não se acomoda
Na construção inconclusa que me tornei.

Ouvidos num par de headphones de alta potência
Perturbam-me os riffs de Mr Page,
A sua voz escarnecida sopra que a morte
Traça rotas impróprias
Enquanto as umidades nas paredes se entreolham assustadas.
Acendo um cigarro e dirijo o olhar no trajeto da fumaça
- Ela vai para o alto, sempre ruma para o alto -

Completamente insone
algo persiste em me dilacerar por dentro,
E então me pergunto
Quanto de extravagância houve em minhas quatro da manhã?
Quantas ilusões sonhei às quatro da manhã?
Quantos pedaços de mim foram desperdiçados
E reencontrados sempre às quatro da manhã?

Muitas vezes destrocei-me em noites entorpecidas,
Embriagadas de nostalgias.
Diante de devassidões que enodavam o que já  me era negro.
Será tão difícil extirpar-me do impuro
E separar o que possa haver de bom em mim?
Será tão intricado deixar-me de pactuar
Fraudulento e inexato?

“Ela está comprando uma escadaria para o paraíso”,
Canta Mr. Plant saudado por um coro de diversas gerações.

Talvez seja penoso aceitar que ainda possa haver escadas para mim.
Impreciso que sou,
Já fui tragado o suficiente no quebranto das milhares auroras
E pela insensatez que me oculta do plausível a que me impus
Eu não quero e não hei de fenecer
Ante o pranto gélido das quatro da manhã.

Me ajude Mr. Plant?

Violação

Gostaria de ter guardado
Aquilo que me reneguei e foi de direito - amor na lapela
E na recusa não ter apodrecido nas paixões escaldantes
Amores de mulheres que se crestam como as labaredas
Que se expurgam nos risos carentes dos tons carmesins

Eu poderia ter esmorecido e aceito
E ser-me muito mais o que me sou:
Um condor munido de asas imensas
Cravando ilusórias garras metálicas
No enegrecido coração das fumaças

Enfim, gostaria de jamais ter renegado
Aquilo que hoje trago -  Rosas Vermelhas -
Flores magoadas que sem sem o viço de outrora
Ficaram velhas como os meus olhos acastanhados
Rudes mistérios pernoitados nos serenos do tempo
Vertidos à lágrima num amor que não derrama mais

Pagão

O poeta só sabe de Deus
Quando quer
Poeta por vezes cospe na cruz
Venerando diabos
Que se criam dentro de si
Alimentando-se de suas entranhas
Líricas e atormentadas

Poeta não é gente
Nem mesmo raça
Poeta é um pagão mentiroso
Anacrônico e subjetivo
Que blasfema o que lhe incomoda
E dilacera a ferida que não se vê
Viscerando a dor que só ele sente

Cadela!

Aristóteles
Pitágoras
E um tal de Doutor Sócrates
Quem se lembra deles?

Eu não!
E aposto..
Nem a Dolores

Nas minhas lembranças
Só a certeza
De não vingar rancores

Dos meus poucos amores
Que pisotearam flores
E me apunhalaram
Com os mil espinhos do jardim

E olha!
Jamais teria sido Dolores
A cadela Fila
A mais linda das garotas
Que em pelos macios
Língua limbosa
Lambia as feridas
Entorpecendo as dores
Que vertiam de mim

Essa sim
Meu único amor

Que chegando ao fim
Me olhou de esgueira
No carcomido da idade
Devorada por vermes
Olhos turvos de cegueira
Morreu lentamente
Num uivo triste
Todos os amores
Que dedicou à mim

DELIRIUM TREMENS

O copo de vinho,
Mais rubro, quase negro
Não amaina a minha sede
E no bar, de propriedade dum amigo português
Outros bêbados amigos apenas riem e vomitam
Blasfêmias que os alcoólatras gostam de expelir

- Deus sentou ao meu lado!
Vangloria-se Afrânio com a fala mole
- Deus, juro, cheira à Paco Rabanne!
Murmura Albertoni, um bisneto de italiano
Para eles Deus não vai além dos três dedos de uma dose
Eu apenas ouço, confuso, enquanto a vida insiste no bar

Não há horizontes, então entorpeço-me de bebidas fortes
Seduzido que sou pelos destilados de teores mais alcoólicos
Sem volta, estou bêbado e procuro Deus por todos os lados
Olho por todo bar, de cima abaixo, à mesa ao lado um sujeito
De feição sensata e ar de poeta, desses que recitam em sarau
Consome taças de vinho tinto e uma  farta porção de bacalhau

A cena poderia ser sagrada, se não me fosse tragicômica
As pernas carregam toneladas, inevitável, ergo para urinar
E tudo gira ao redor - DELIRIUM TREMENS - exclamo
O estranho ouve em silêncio e me fita com olhos tão azuis
Que num instante eu quis que aqueles olhos fossem  meus
Pois parecia humanizar a noite trazendo a paz necessária

Levanta-te e anda! – Surpreendentemente ele sentencia –
O tom é autoritário, logo, nele a falsa piedade não exala
Depois crava o olhar no copo e flerta com a sua bebida
Eu o olho pasmado quando traga outro longo gole grená
Havia fé em meu equilibro, e não me pesavam as pernas
E o milagre veio plácido ao levitar sobre mar de cervejas

À moda antiga.

Queria dar-te todas as flores
Todos os amores
E as mais de mil rimas
Que os insensíveis desdenham:
Poeta que rima flor com amor
Não se leva a sério, é um horror;
Alardeiam friamente
Portanto minha flor
Não espere de mim qualquer palavra
Onde advenha a conotação com o amor.

Pois serei tal qual um desses garotos descolados
Um visionário a levar-te na cauda de um cometa
Te fazendo o presente da lua
Mesmo que minguante, mas desde que erijas ali
Ornando o firmamento ao brincar com as estrelas
Que gostaria que fossem grenás
E assim que há de ser
Não pensemos mais nisso
Nem despetalemos a mais aveludada flor
Ou desperdicemos frases que celebrem o amor

O importante é não sermos antiquados e nem perdermos o cometa
Pois é imperioso que voemos aquém da sensibilidade
E lá chegando, longe dos olhos, tenhas certeza
Da cartola tirarei a mais linda das rosas vermelhas;
Uma flor para um amor como há de ser
E teus olhos umedecidos cintilarão em mim:
Criança refletida na emoção das tuas lágrimas
E ela, com o coração apertado e no mais terno abraço
Exalará o teu perfume, secará os teus olhos
E sorrindo murmurará aos teus ouvidos:

Flor! Serás para sempre o meu inesquecível e eterno amor!

Prostituta!

Blasfemo incontido e raivoso
Sabes desconsertar-me com teu perfume
E este olhar tresloucado de devassidões
Assim, provocante vens em minha direção
E te fazes incauta, mas o olhar é dominante
Já que sabes o que fazer com o vestido negro
Que soergue palmo e meio acima do joelho
Pois sou teu escravo, instrumento de possessão

Então te tornas sorrateira e me envolve com riso debochado
Te despes e espalhas as tuas roupas por todos os cantos
E  nua não há como deixar de notar-te os lábios vermelhos
E eu os beijo e desço pelo corpo e bebo de tua umidade
Num momento que é só teu  Maldita Gata Borralheira!
Dissimulação que me dilacera neste olhar que chispa brasas
Enquanto a tua boca depravada seduz e sorve-me quente

Mesquinho, depois do gozo evito sair com você
Pois me enciumo em todas as esquinas do mundo
Onde nos escombros da noite e sob marquises neons
Sujeitos tragam fumaças que serpenteam dos cigarros long size
Homens à toa que não disfarçam a luxúria de te desejarem tanto
Ávidos por verem passar a linda grã fina pedinte de esmolas
Como se essa fosse a puta mais rameira do universo


Copirraiti ago/2010
Véio China©

Terra Mãe ( para Índia Onhara )

Talvez eu deva chorar
até  ressequir
e me ter varrida no tempo

Talvez este meu pranto
possa doer até o florir
de uma nova primavera

Talvez pranteie a saudade
e uma quase certeza
desta dor não mais acabar

Talvez, e só talvez
enleada no pranto que corrói
viajarei no lamento do vento

E me infiltrarei
delicada semente
em Terra Mãe

até um reflorescer

A anatomia do ego

O Ego que te alimenta
Não cabe nas linhas que escreves
E nem o narciso que te atormenta
Consegue vislumbrar a beleza
Naquilo que seduz
Mas que em ti não te espelhas

Retira-te para as profundezas, Satanás
Tu e esta boca horrenda que desdenha
E que nos quer como bibelôs enfeitados
Enfileirados nos pós das tuas prateleiras
Queres vermes que nasçam do teu ventre
Para vomitares quando te for conveniente

Malditos seja aqueles semelhantes a tu
Que em nome da sacrossanta literatura
Fabricam e vicejam sentimentos torpes
São pútridos cirurgiões de hálitos cancro
Ao se suporem sublimes e inesquecíveis
Algo fervoroso, diria até, quase sagrado

Entretanto sei que o ator em ti  preserva
Com  reconhecidos talentos, é verdade
Porém para meu ato te reservo o papel
De aceitar-te torpe, miseravelmente tolo
A viver como um ladrão que sorri de si
Vaidoso ao enganar-te no próprio dolo

SEVEN - (BY VÉIO CHINA)

SEVEN

Somados nas ambas mãos
os dez dedos eu tinha
Porém foi até o sete que contei;
Sete lindas moças, todas virgens
E eu, um viajante de boa falação
Seduzi tomando-as em fecundação

Pra que fui mexer com os mimos dos donos de latifúndios?
E foi assim que sete foram os revolveres dos coronéis
Nordestinos tão furiosos como os guizos das cascavéis

Longos e densos meses se passaram
E juro! não digo mentira, foram sete
E prematura nasceu a primeira cria

Queria ter visto a  minha menina, não vi
Pois só restou me evadir e fugir por aí
E corria de dia e me escondia na noite

Porém no ocaso do trovão dum lugar distante
Foi que a pontaria dum jagunço me alcançou
E gato que não mais era, não tive como fugir

Sete horas do mês sete
Dezessete foi o dia
Sete velas três de quartos
Sete chamas em sacristia
Eram os os risos do diabo que ardia
Alumiando o altar da Virgem Maria

Mesmo que não quisesse...Minas Gerais velava meu corpo indigente

Copirraiti ago/2010
Véio China©