terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Seis




Seis séculos,
Seis décadas, 
Seis anos, o que são?  

Não sei e talvez ninguém há de saber
O que apenas sei é que eles encerram
As frações de tempo e toda a cultura
Tatuando consciência, fazendo história
Represando os momentos na memória

Os seis anos...Sinceramente?
Não sei e nem há como prever
Portanto teus, só tu para saber

E ao fim talvez nem saibas
Pois o pouco que deles sei 
Sei que vidas serão vividas
Sei de tudo, é pouco, aliás
E do pouco é que sei mais

Seis que amores verterão à luz do dia
Sei dos inesperados sabores amargos
Que secarão junto às folhas de outono

Sei dos atalhos no asfalto da mentira
Sim, essencialmente sei dos humanos
Das suas poucas verdades e da farsa
Sei do sorriso desvendado na alegria
E das mágoas que profanam o peito

Evidente, serei muito mais que óbvio
Pois insistindo humano sei algo mais
Sei do traço, daquilo que é  obscuro

Sei da pele, boca, sei dos beijos
Sei o ponto que abrasa o desejo
Portanto sei das paixões, as taras 
Dos momentos tórridos, instantes
Onde corpos se decretam prazer

Por fim minha amiga, sei que te pareço genérico ao persistir afirmando
que nada sei, e o pouco que do pouco sei não te sacie, pois o comum
despondera e não cala nesta boca que se embriaga nas ruas de Roma.
Entretanto aquilo que  pouco sei vou te dizer, talvez segredo ou legado:

Tudo haverá de se elucidar
Na crua frieza dos segundos
E na calidez do beijo da morte:

Seis horas 
Seis minutos
Seis segundos
Apenas serão seis
Para quê saber mais?


Copirraiti18Dez2012
Véio China©

**Para uma amiga de comunidade.




sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Rota


Ah, poesia!
Poesia que devia
Poesia que supus
Poesia que não deixou a mente

Ah, coração!
Coração que pulsou
Coração que verteu
Coração que procurou versos

Ah, emoção!
Emoção que senti
Emoção que sorriu
Emoção que calou e percebeu

Que bem ao meu lado
Numa linha escondida
A mais simples poesia
Verso que tanto queria

A poesia, meu anjo...
A poesia faremos nós numa sinuosa estrada
Onde ainda não vemos marcas no horizonte
Mas apenas pegadas do meu amor por você


Copirraiti14De2012
Eduardo Pavani ©



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Fera!


Ah! Se estivesses aqui
Te levaria para as ilhas,
E relaxaria à noite
Ao o som das ondas
Enquanto o vento
Acariciaria nossos corpos
Desnudos e em flamas
Sob singela timidez do luar

Porém não sou só mar,
Sou entranhas, sou fúria
A fera que te espreita
Nas minhas tantas imagens
E em muitas das paisagens,
A que te introduzo
Sim, não  precisas dizer
É sonho e não estás aqui

Portanto não há o cheiro da caça
Para saciar minha fome, pena!
Pois não sabes das fantasias
Que trajo as minhas vontades
Inebriadas e perdidas de ternuras
Desassossegadas em meus desejos
Pelos lassos sabores desta boca
Tua, e que meu corpo incendeia

Argumentos: Claudia Valéria
Participação: Véio China

*Mais um de Clódinha!
Esse..este sim, tórrido como um dia inclemente
do mais insano verão.

hehehe

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Além-Mar



Felina sim! Mas na ternura sou a mulher que arderá no ninho dos amores proibidos, um lugar que somente eu sei da rota e onde se vive intensamente. Compreendas, posso levar-te a esses lugares inimagináveis e em tantas outras extraordinárias viagens. Decidas agora se me queres menina mulher ou a onça que madura esturra no fogo das minhas entranhas

Ah amor! A saudade me era tanta
Que em plena tarde deitei à alcova
E pensei na maciez dos teus braços
E nos lábios sussurrando bobagens
Em meus ouvidos ávidos por elas

...Porém o meu corpo insatisfeito queimava e então me levantei e segui para a varanda onde sentada flertei com as estrelas que pairavam sobre a serenidade do oceano.  A tocante nostalgia estava ali no cheiro do mar e na melodia dos ventos quando inexplicavelmente lágrimas desceram de mim e banharam-me as faces - Algo persistia faltando e logo percebi que eras tu – E te quis ali ao meu lado e naquele instante. E te quis com as mãos nas minhas ao caminharmos pela praia sentindo nas solas dos pés as areia ainda quentes de uma tarde de verão. Sim, e esse mesmo dia se definharia em devaneios e cederia à cumplicidade duma lua cheia que contornar a minha silhueta na moldura da paixão.
E tudo insistiria e a saudade e meus pensamentos viajariam até um delicado momento onde suspiraria, pois na verdade não estavas ali. E melancólicos os meus olhos se voltariam para o mar e veriam o luar refletido nas águas num mesmo tempo em que acanhadas vagas se quebravam na praia. E a tristeza cederia lugar ao encanto e eu namoraria o chegar daquelas pequenas ondas que, depois retornariam tranquilas para o mar. E o instante e o cheiro e o vento me fariam consciente do simbolismo de tão magnífica paisagem, e então compreenderia que ao chegarem me trouxeram esperanças e retornando carregaram junto delas as minhas tristezas para um além-mar...

Subitamente fui arrancada deste devaneio e sorri ao pressentir que virias e te tornarias um porto seguro. E vou esperar por esse dia com a mesma ânsia da onça e aguardar o instante que, atracando recolheras as embarcações repletas de mim.
Ah meu amor, venhas logo e não demores tanto! Venhas e carrega-me em teus braços e faças de mim um dos motivos da tua loucura.

Argumentos: Claudia Valeria
Colaboração: Véio China

*Eu e a minha querida amiga e ótima poetisa Cláudia (sim, ela vai dizer que não!)  nos conhecemos numa comunidade chamada Bar do Escritor (Orkut) Sei que conversando recentemente Cláudia me desafiou a elaborar um texto com algumas linhas mestras dos seus pensamentos. Bem, tentei e gostei de brincar com elas. Porém a dúvida... talvez com as minhas mexidas tenham perdido a leveza da mulher.
Mas também Claudia...tu há de me dar o crédito: Jamais fui mulher! hehehe

sábado, 1 de dezembro de 2012

A espera


Queres uma poesia
Mas ainda não sei volvê-la
Meus sentimentos voam
Planam e são águias incertas

Que pousam em teu olhar
Cura para as tantas dores

Suspiras por uma poesia
Que ainda não sei contrair
Poesia talvez seja um parto
Doloroso, difícil, prematuro

Onde a aflição dos que amam
Rezam o aguardo da sobrevida

Desejas tanto uma poesia?
Sim, desejas, mas não a fiz
Apenas fito os teus olhos
E contorno as imaginárias

Linhas dos teus lábios
Ao ouvir-te calma voz

Questionas se esqueço a poesia?
Não questiones baby! Eu a farei
Poesia me é assim como o amor
É igual ao ódio, esperança e dor

Poesia é a mera questão do tempo
Onde toda a existência se acomoda

Copirraiti01Dez2012
Veio China©

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Mortos-Vivos

Assassinado o que acreditamos fenecemos o EU
Tornando-nos apenas mortos-vivos
Desses que levantam para novamente deitar.

E quando a morte se faz por nós mesmos
Levamos para um caixão ainda em vida
A pujança do Fogo, do Ar, da Terra e Água
Motrizes plenas de todas as sensações vivas
Forças geradoras que sinalizam para a vida
Inequívoca e única e o motivo de estarmos aqui.
Digladiados entre o bem e mal, razão e emoção

E cedo á razão ao não mais sentir-te  as emoções
O jeito que te me entregas ou que te restou no olhar.
Pois aniquilei toda sandices e teus cruéis personagens

Sim, foi doloroso extrair as mentiras nas tuas verdades
Assim como dilacera-me agora ver teus olhos cerrados
Pois lembro-me deles ainda sorrindo e gostava tanto 
Recordo também tuas palavras que um dia juraram
Celebrar unicamente a verdade, como por exemplo
Tua paixão por mim, raios de sol e noites de lua cheia
Enquanto eu sorria no mesmo verde das tuas pradarias

E agora é tão triste me ver no lugar no qual estou
Perturba-me este odor, o doce cheiro da morte
Se desprendendo como suor nestas flores eternas

Desespera-me colorido destas pétalas aveludadas
E das rosas que em tons avermelhados te ladeiam
Entendas, te lamentam ao acariciarem-te a silhueta. 
Enfim... Não há do que te queixares, enfim,  hoje
E tão somente hoje elas te serão companhias
Já que são as únicas testemunhas dum sentimento
Que carne-unha riuiu juntamente a ti; O amor

Portanto celebro a vida, não a tua, mas a minha
Pois ainda sopra dentro de mim as força e vida
Assim como demais os elementos da natureza

Sim, confesso-te que por vezes me senti morto
Mas ressuscitei no agora e assim me sinto lúcido
Afinal, aquelas mortes jamais foram as minhas
Todavia dona, me dói muito e te peço desculpas
Pois me é impossível abandonar--te sem sepultar
Ah..minha doce e insensível senhora...
Se soubesses a dor quando se enterra um morto-vivo...

Copirraiti13Nov2012
Véio China ©
**Estranho..amanheci pensando em Nelson Rodrigues...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A ferro e fogo




Vou falar das linhas que não mais se deitam
E da poesia abandonada e da falta que sinto
Vou falar da vozes que agora não sentenciam
Do olhar vago que não vive para  contemplar

Descolorimo-nos nas trincheiras, soldados sobre minas
Um navio de medos zarpando, deixando à beira do cais
A tristeza do homem, o aceno de mão, embargo da voz
Ao olhar a nau que desafiará um mar inaudível aos ais

Portanto fostes a  fantasia, ilusão daquilo que foi sonho
Um mar que arrebentou lá fora e levou a nau e a paixão
Deixando quimeras e prantos soluçando ilusões no sujeito
Que não mais sonhará ,pois viverá apenas para fantasias...
....
Ah, é cruel a imaginação que nesta hora  me toca 
Ao reinventar o enigma dos teus castos sorrisos
E um tênue olhar nostálgico que encanta as rosas;
Flores nos tons do sangue que florescem no jardim

E estou acordado, louco fantasma a imaginar os sorrisos das pétalas
E há sol e ele parece feliz ao acariciar um  beija-flor que bate as asas
Que reverenciam a ação dos ventos, e se locupletam nas paisagens
Colorindo-se nas matizes, vestindo nuvens, tingindo de cores o céu

E nele o azul mais exuberante que vi 
Um tom onde os olhos se acalmam
Desses que não ousamos em sonhos
Pois realizam somente na imaginação

Copirraiti30Out2012
Véio China©




Copirraiti30Out2012
Véio China©

domingo, 21 de outubro de 2012

Surpresa de Feira

Na feira hoje encontrei
Uma coisa que nada paga
Algo que jamais trocarei
Carinho que me afaga

Na feira hoje encontrei
Poema com sentimento
Cair uma lagrima deixei
De puro contentamento

Na feira hoje encontrei
Essa pessoa de amor
De ledice eu pulei
Ao sentir tanto calor

Na feira hoje encontrei
O Véio China, será?
Ou o Eduardo não sei
Eu não soube enxergar

Quem sabe essa mistura
Ficção e realidade
Que fez essa criatura
Encantar-me de verdade.

Hoje na feira vou deixar
O mais puro sentimento
Esse  que nos faz voar
Faz-nos leve feito vento

 Beijos Véio ... sem palavras!

*Um carinho da poesia de Raquel Ordones no coração do Véio China.
Obrigado Kell! Sempre!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Toques



Hoje o dia foi duro, um dia dolorido
Foi dia que me perdi do seu perfume
Confundido ao etnreolhar-me na ilusão
Angústias daquilo que não foi o amor

Moça, hoje foi um dia triste, acredite
Não houve toques para  meu celular
Só silêncio, a falta da voz da mulher
Que me diz: oi amor, está tudo bem?

Hoje me senti herói ao duelar com a melancolia
Pois sua voz ainda dormia em minha lembrança
Quando os meus trêmulos dedos da mão direita
Tristes, excluiram suas mensagens da caixa postal

Copirraiti11Ou2012
Véio China ©

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Viagem Insólita



Quisera eu
Que o tempo fosse apenas tempo
Algo manipulado e que impusesse à lembrança
Relacionamentos eternos mesmo que distantes
Desses que não se abalam ao longo da  trajetória
Que reagem brado às revoluções da sua  história

Quisera eu
Que o tempo fosse nada menos que o tempo
Ao  me deixar sonhar e sem levar-me da memória
Coisas jamais vividas como um cheiro de tua pele
A umidade do teu corpo e o amante sorriso do olhar
Ora tempo! O que pedi se não apenas o querer amar?

Enfim, quisera que o tempo sendo a determinação do espaço
Desatasse-me das incertezas e que ainda houvesse um tempo
De viver não apenas os pensamentos, mas a crueza dos fatos
Que não permitiu o toque da tez e nem os sussurros dos lábios
Num encontro ansiosamente esperado, mas que não  foi vivido
No suposto de nosso amor que, devastado nos medos feneceu

Copirraiti10Out2012
Véio China©

*ica

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Concreto

Concreto é o que jorra
Das mentes, palavras e afetos
Concreto é o que pulsa
Nas veias, índoles, desafetos


Enfim, concreto é apenas concreto
Agregado de pedra, água e cimento
Endurecendo o exibicionismo humano
Em vaidades vis e sem discernimento

Copirraiti28Set2012
Véio China®

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Giz



No quadro-negro
O amor se dissipou
Retornando ao pó
Branco, amarelo, azul

Sem qualquer vestígio no apagador
Supõe-se que o giz foi  assoprado
Pela dissimulação que se urde no peito
Ou nas mentiras que se proclamam razão

Copirrai14Set2012
Véio China©

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Carnívora

Dentes teus que penetram frios
A fincar como garras nas costas
Ao que a língua me lambe infame
Sentindo o gosto de mim, incauta
Impotente presa de tua fome

Que te excita e refuta o torpor
Então da carne sentes o calor
E no exalo da pele um odor
Que te enlouquece no ardor
De excretar de mim o sabor

Foi tua tocaia, perfeita, capitulo-me
Ao esturro da onça vil e carnívora
Que ora se aninha doce em meu peito
Depois de devorar-me ao meio do leito
Na fúria da posse e no delírio do amor


Copirraiti28Ago2012
Eduardo Pavani ©

sábado, 7 de julho de 2012

Erros

Preciso aprender a controlar a fúria
das minhas palavras
Fazer da minha poesia paisagem calma
Onde não há pedras,
Onde não há erros

Observar atenta cada virgula, cada letra
contar as sílabas dos meus vãos sonetos
Preciso alentar meus verbos
Fazê-los concordar com a vida

Eu preciso nas minhas letras densas
Que o medo imenso
Já não seja prepositivo
Que os meus motes então não firam

Preciso deixar tempo e pessoas
que vão comigo no infinitivo
Guardar meus erros em meus escritos
enquanto a alma se ameniza

By Cristhina Rangel.


Um poema de minha amiga Cristhina
homenageando o Véio China pelo
relacionamento do dia-a-dia no BDE
uma comunidade literária do Orkut

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Anjos e Demônios


Somos anjos e demônios.
Enquanto anjo visita-te a doçura das preces
Que dedilha  poros e suga as tuas cavidades

E assim entre desejos e rubores é que te escancaras
Permitindo um beijar-te a  boca e acariciar-te o sexo
Num mesmo suave e costumeiro jeito de nos possuir 
Sorvendo-nos  o que se excreta na libido dos corpos

Porém nem sempre me quererás assim; Doce, sacro e santo.
Por vezes tornar-me-ás brasas e vestirás em mim o demônio
Que lateja em ti as profanas chamas que nunca adormecem
Desafiando-me os gemidos que se partilham pelas paredes
Como pudessem elas ocultar os segredos dos meus prazeres
Ou o momento espúrio onde não te importas em ser dona de ti
Pois me imploras perversa naqueles lábios devassos e carmins

- Cara,  venha! Aqui jamais o solo é santo
E nem tampouco você é o meu anjo agora!

Sim! É certo que te ouvirei um riso debochado
No instante que me revelas que teu peito ofega
E o momento é aquele, é hora, é bote de cobra:

- Venhas! Penetra-me rápido seu descarado! –
Ordenará a serpente que na cama rasteja em ti

Ora! O que importa é a iminência do prazer que concedo
Na pele que me vestes;  a do pobre diabo que te convém

Insatisfeita insistirás sedução e serás por mim possuída  
Para desfalecer no gozo que te escorrerá entre as pernas
Então me olharás vadia e recolocaras a diminuta calcinha
E sutiã transparente naquela irresistível tonalidade sangue

Depois o silêncio dos gemidos e tudo como sempre foi;
Sorrindo-me te levantarás e seguirás para o banheiro
E ali como de costume inspecionarás a  tua imagem
Caras e bocas e as mãos deslizando pelos fartos seios

Da cama os meus olhos te perseguirão e pelo vão da porta entreaberta
Apreciarão as estonteantes curvas vestidas na insensata lingerie grená
Então será o meu momento e sorrirei descarado acendendo o cigarro
Que expelirá fumaças que serpentearão ao reflexo do espelho no teto


Copirraiti 2011Set21
Véio China©

domingo, 24 de junho de 2012

Trevas


Trevas

Há trevas
Na luz que cega os galhos
Secos e apodrecidos
Que se tombam inertes
Em corpos pútridos
Feitos da raiz de nós

Há trevas na existência
E em todos os supostos deleites
Que aparentando brilho turvam vidas
Obscurecendo olhos, estancando veios 
Que sem a seiva não mais lacrimejam
Os conformismos deleitados em pó

Copirraiti23Jun2012
Veio China©

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Fascínio


Há feitiço  na tua expressão
Que ora diz sim, outra não
Mas que sabes, incita-me  
Em insofismável fascínio

Há feitiço em cada linha do teu rosto
E neste sorriso que rompendo o dia
Desafia tolos e suas falsas crendices
De não verem na vida algo de magia

Há em você um feitiço, o maior de todos:
Um olhar de quem oculta pedras preciosas  
Que se encantam nos atalhos das  mil rotas
Seduzindo-me como os olhos de uma naja


Copiiraiti12Jun2012
Véio China ©

terça-feira, 5 de junho de 2012

Let It Be

Tudo soou tão estranho
E o "fora" pareceu agravar a situação
Agora em cantos opostos eu olhava pra ela,
pros longos e azulados cabelos dela,
e eles bailavam nas curvas da cintura
como nada houvesse acontecido, ninguém ferido
Por um minuto pensei, aliás, eu não, o amor próprio:
Que não era necessário alguém me convencer
que eu era o garoto mais maneiro do lugar
O que poderia ter visto naquele loirinho magro
de pernas tortas enfiadas na justa calça Lee?
Algumas garotas passaram e uma delas olhou interessada
E era bonita, se insinuava, mas eu não as notava
A vontade apenas de ficar ali no canto, parado
num rosto fosforescido nas luzes negras
 a olhar os azulados cabelos que dançavam
no compasso da música que se iniciava
E a voz ecoou nas potentes caixas de som,
doce, apaixonada, e de alguém que conhecíamos,
doçura que não suavizava o gosto amargo da minha boca,
o momento ou os sentimentos que eu experimentava
Let It Be... Let It Be
Foi a primeira vez que ouvi aquela canção dos Beatles 
Deixe assim... deixe estar, pedia Paul
num baile que prosseguiu, isqueiro, cigarros e um rapa pra cuba
O que mais poderia fazer a não ser estar ali e destroçado?
Foi então que bebi o que doeu ouvindo os heróis da minha geração,
reis sufocados de fama, de grana,  de gritos e obsessões
Garotos que quase nada sabiam a não ser cantarem para um mundo,
que queriam livre, para eles, para mim, e uma recente juventude 
que nem tão jovem era

Copirráiti jul/2008
Véio China®

Asas

 Mesmo que não houvesse olhos
Talvez eu não os precisasse

E se dos lábios sentisse a falta
Será que os necessitasse?

Enfim, há algo de simbólico
No coração que pulsa perfeito

E ele toca
Vê, ele fala
Anjo, amo você

(Eduardo Pavani)

Onça

As vezes um urro
Suas unhas fincam minhas costas
Causam dor, apesar de saber, é amor
Noutras seus murmúrios me arrepiam
Escapando dos lábios de hortelã
Um doce toar das mil lições de amor

Ah, Maria, branca, rosa, Maria Flor!
Mesmo não misturados amor e dor
Causam-me medo, espanto e diversão
Afinal, inopinada, de insólita previsão
Na fúria sou a presa, devora-me a leoa
Quando onça, lambe doce, faz-me a cria

Eduardo Pavani

Azul

Azul

Ah azul....

Azul que me encanta
Emanando do mar
Perdurando nos céus
E abraçando essa Terra

Por vezes
Com o desespero de um pai
Ou as dores da mãe,
Mas sempre, sempre....

Com desmedido amor


Eduardo Pavani

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Pilares de Maio


Não são teus esses meus olhos
Nem esta boca, pernas e braços
Serei mais preciso
Nem mesmo meus pensamentos
Tão confusos e incertos
São teus ou do teu conhecimento

O que pode de haver especial em mim
Se no espelho fui passado
E hoje me atraco no presente
Que não me faz covarde ou valente
Pois o término é no fim do muro
E ao futuro é que a vida pertence

Portanto não olhas o que vejo
Não carregas o peso
a que me atrevo
Nem segues as rotas das pernas que não falam
Pois caminharam estreitos, imprecisos, escusos
Feitos de atalhos zombados às gargalhadas

Assim nada há de especial em mim
Talvez  te excites a forma inconsistente do meu ser
Este meu levar a vida vislumbrando nada, supondo tudo
Algo parecido ao receituário inexato e de prazo  vencido
A medicar sanidades que me insuflam e afrontam
E dobram-me nos joelhos, mas que jamais me carregam

Talvez eu seja apenas essas tolas bobagens
Ou o acaso daquilo que é frágil me imaginar:
Um sobrevivente sem a menor compaixão
Desses que não sabem se há o sofrer nos amores
Ou sequer se há cores nos olhos da paixão
Por fim; A irritadiça inércia em solo vadio

Pois bem...

Pensem o que quiserem
Isso pouco ou quase nada se me dá
Pois debaixo de minha pele curtida
A vida mecaniza sentimentos selados
Contudo há tons de esperança no sujeito que estou
E outras cores haverão além dos alvos fios da barba

 Enfim...

Sinto-me um cara apaixonado que planeja ser feliz
Reavendo do tempo o tempo que o tempo levou
Pois meus pilares de Maio estão mais fortes que nunca
E são como as águias forjadas no mais puro aço
Que não se sustentam em sonhos sem poesias
Ou nos poetas que planam sem quaisquer fantasias

Eduardo Pavani 11/05/2012
Para alguém...

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A varanda

Neste céu salpicado de estrelas
Os astros brilham duma forma que jamais vi
Aqui no campo não há a algazarra dos motores,
Ou pessoas amedrontadas no apartamento ao lado
Aqui  a natureza  fecunda e gera odores e  sons
Cheiros que jamais se misturarão à nefasta poluição
Ou ao tabagismo crônico da minha insone estupidez

E eu apenas olho, sinto e me apego na escuridão
Numa noite que me oferta mais que os faróis dos carros
Ou as luzes de emergência das saídas de cinemas
Mas sim o murmúrio das copas que me brindam
Com as pequenas luzes de sensíveis vaga-lumes
Que cintilam  sagradas, verdes, candentes
Como se fossem pisca-pisca numa árvore de natal .

E é nessa calmaria entrecortada pelas preces dos grilos
E todos os tons duma primaveril atmosfera
Que inspiro o cheiro da terra molhada, do mato orvalhado
Absorvendo todos  odores que se fundem ao ar, gélido
E se misturam e impregnam-se nas minhas narinas,
Corando-me as faces, afetando-me na sanidade dos pulmões
Miseravelmente tão afeitos à degradação da grande cidade

Assim, ajeito-me numa cadeira de balanço da varanda
E sem pensar em nada que não seja o vaivém do movimento
Trago um, dois, quase meio maço de cigarros
Num ato injusto de macular a perfeição que me acerca
Atitude horrenda e espúria que faz perpetuar em mim
A crua  natureza da humana insensibilidade
Diante das coisas de Deus e de tão bucólicas paisagens



Copirraiti 02Mai2012
Edu Pavani

*Adaptado de parte do conto "Marcela, eu, e um dia na roça"
Para Marselha.

sábado, 21 de abril de 2012

Pétalas de outono

Por que há tantas pedras em minhas mãos?
Talvez porque aja em mim o covarde confinado
Fracasso degustado em fogo brando
Temperado de angústias e madrugadas
Então saibas poltrão! Queiras mais,
Sejas mais que o fatigado sabor aveludado
Das belas e melancólicas pétalas de outono

E por que essas pedras pranteiam em minhas mãos?
Lacrimejam pois não há o meu desejo de aniquilá-las
Senão apenas a solitude dum esforço pérfido
De proteger-me do que restou junto a nave mãe,
Numa desastrada tentativa de rever-se enganos   
Traços vitais de todas inverdades e crenças abarcadas
Afinal, poucas verdades jamais saciam os mentirosos

Porém a pergunta insiste e nunca cala:
Até onde renegarei a legitimidade daquilo que em mim não se opera?
Não sei e jamais saberei! Sou o frio, calor, broto de flor, sou folha seca
Me visto na morbidez e a intempérie que açoita as quatro estações
Insensível e inequívoco engano que não ousa como o sonho do palhaço
Um anarquico logrando a vida naquilo que ela me dá de mais ordinário
Sou simplesmente um nada, ínfimo, menos que coisa qualquer

Enfim, o que há de humano e de desesperador agora lateja aqui
Nesse desacerto, nesta estrela ofuscada num céu de breu,
Nesse tolo intérprete de cansados scripts mitigados 
Um farsante que sem o julgo se decreta na própria sentença
Da ambigüidade consumida nos três cantos da consciência
Enfim, sou água contaminada que jamais perfura pedra dura

E esses talvez são os motivos delas criarem afetos em minhas mãos
Sensações amargas que se distanciam das pétalas do outono que quis
Pois o que acaricio são somente pedras, frias, rijas, insensíveis
Pedras que um dia serão lançadas a penitencia que me proponho
De chegar o momento de refletir-me num cálido sorriso de criança
E nele abominar-me o espelhado e as tantas hipocrisias impostas
Nos dolorosos contornos escolhidos e na falsas fendas que murgulhei

Véio China ©
21/04/2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ao pé da serra

É amor
E é tão forte
Que sobreviveu aos meus tolos desenganos
Ludibriando raposas astutas
E o insano gargalho de noturnas hienas

É amor
Um amor tão pujante e puro
Que penso, só desistará de mim ou de você
Quando em um de nós não mais houver o sopro

É amor, definitivamente é amor
Um amor tão límpido, tão lindo
Que peço-lhe, se a ordem cronológica vingar
Guarde-me em pequena caixa de madeira de Lei

Pois há em nós o sentimento perfeito
Que  unirá e nos tornará apenas pó
Negras cinzas que num melancolico lamento
Serão levadas pelos sabores do vento

E quando a magia do momento chegar
A poeira lançada afagará a singeleza verde
Um brinde à cumplicidade fértil do solo mineiro
Ante o olhar complacente da Serra do Paraíso

Eduardo Pavani
11/05/2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Noctívago

Talvez

A madrugada seja unicamente a ilusão
Um falcão de coração apertado
Que mira a caça com os olhos fincados


Talvez

A madrugada seja nada mais que murmúrios
O lamento rajando como o vento de fora
Um uivo que desimporta no rogo das horas


Talvez, e só talvez

A madrugada seja apenas a mulher que vai me matar
Com requintes do que não sei, sem me deixar saber
Se de amor, por dor, ou num reles prazer


Copirraiti 08/02/2011
Véio China©

sábado, 26 de novembro de 2011

Emaranhados

Em denso nevoeiro
A opacidade dos faróis do carro
Projetam-se denunciando eu e você

É noite e ela é doce e murmura amores
Diante um vento que açoita fugazmente
Seres abrasados nas juras do fogo lascivo 

Há conspiração e a complacência duma lua que espreita
Olhares ansiosos diante a prostituta conivência da noite
Que eternamente se enamora daquilo que resiste além-sol

É desta forma que a madrugada acolhe as sombras amantes  
Nós num campo neblinado bailando em ritmo compassado
Envoltos nas carícias e pelos tons das inebriantes melodias


Enquanto ao redor, obscuros e em tocaias
Lobos de olhares rubros e  presas afiadas
Maldizem os vícios de imensurável paixão


Copirraiti 26Nov2011

Véio China©


domingo, 6 de novembro de 2011

Se ( Para Olga & Elisa )

Ah se o riso fosse tão fácil
Ao esmagar as pútridas feridas
Algumas até na cor do anil

Ah se a dor não fosse tão triste
Escarnecendo as linhas da face
Com seus cinco dedos em riste

Ah se a vida não fosse tão efêmera
Levitando prantos, fazendo surpresas
Na timidez das esparsas alegrias

Ou quando não
Florindo em asas de tempo
Trazendo vento e sons de lamento

Enfim, seriam esses os motivos
De negar-me o doce acariciar
Das minhas tantas cicatrizes?

Copirraiti 05Nov2011
Véio China©

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Goodfellas

Ah saudade!
Saudade dos teus longos cabelos azulados
Refletidos ali nas luzes negras
Em raios coloridos e neons
Te projetando como sombra de parede

Ah saudade!
Saudade dos teus dentes, alvos,
Da pegada perfeita
Da tua boca mordiscando meus lábios,
Possuída do mais denso desejo

Ah saudade!
Saudade de mim e de você
E do amor que não mais sinto, roubado
Enclausurado no refém que me tornei
Nos labirintos do teu negro olhar

Copirraiti ago2011
Véio China®

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Mooca Mia

Para Mano Véio.
...

Nascido na Mooca
lobo de fogo
guerreiro solitário
suas lembranças
ainda são crocantes
tais quais as pipocas
dos cines Aliânça
Ouro Verde e Patriarca
a experiência foi dura
nostálgico chorou
quando o cine Roma
fechou suas portas
com o filme Roberto Carlos
em Ritmo de Aventura.
Malandro da Mooca
criado nas gangs de rua
sobreviveu a era da navalha
e brilhantina
longe de ser um homem
calculável do dócil rebanho
fruto da melhor argamassa
do rio Tamanduate
ainda mantem
de sua identidade antiga
o velho gingado e paletó aberto
o lenço de seda no pescoço
para cegar navalhas inimigas
nosso herói aspira á unicidade
enquanto a grande maioria
tomava seu cuba libre
ele bebia e até hoje bebe
seu Blood Mary!



**Uma homenagem do fantástico poeta Bento Calaça para o seu mano, Véio China


http://vocaroo.com/?media=vSxpDu9v6VBls1dnN

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Follow Me

Siga-me
Esqueça essas feridas que marcam a sua pele
Essas cicatrizes tão visíveis que pretendem
Constranger

Siga-me
O ferro quente queima e arde
E eu sei da intolerância e o prazer
Que muitos sentem aos nos ferir

Siga-me
Eu posso ver suas marcas
Contorná-las com dedos
Percorrer cada linha, cada dor

Siga-me
Pois elas nos acompanharão
E eu gostaria de curá-las, mas não posso
Pense nelas como obstáculos no caminho

Siga-me
Eu também tenho os meus espinhos
Ferimentos causados por pedras e estradas
Repletas de ciladas e que não soube contornar

Siga-me, e apenas
Acaricie as minhas cicatrizes como afagarei as suas
Não há e jamais haverá ferro em nossas mãos
Nelas apenas o amor de quem não sucumbiu

Siga-me!


Copirraiti 29Mai2011
Vpeio China©

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Fórceps

¨
O que escondes atrás destes teus olhos
E na tristeza de um sorriso tão meigo?
Parece-me haver neles tantos apegos nostálgicos
Que sou capaz de pressenti-los donde estou
Todavia, o desconhecido não me faz decifrá-los

O que está ao meu alcance é aquilo que me permites ver
Não há enganos, pois bem sei,
Que apesar dos teus muitos desencantos
Reflete-se tanta vida neste teus olhar que o justo é se ter feliz
Entretanto percebo; o medo escraviza e não ousa revelar-se

Ah! Será que és ilusão? Gostaria de saber aonde e como te tocar
Descobrir a fenda, a lacuna, um ponto de acesso e transgredír-te
Aproveitar-me da loucura e profanar-me no santo em sua cruzada
Exorcizando a fórceps as feridas impolutas dum olhar melancólico
Que me enfeitiçou sem medos ou  quaisquer ranços de compaixão


Copirraiti 17Mai2011
Véio China®

terça-feira, 17 de maio de 2011

À Deriva

 


Elemento da natureza
Sou matéria do capricho
Do macho e da fêmea
Numa noite de amor e libido

Água, Fogo Terra e Ar,
Beba, se aqueça, ande e respire
Foi o que me ensinaram sem saber
Se haveria salva-vidas dentro de mim
 
Não! Não há e jamais houve
Fora de mim apenas os mares que singro
Ondas calmas e bravias que me naufragam
À deriva, seduzindo-me a não submergir
 
Copirraiti Mai2011
Véio China©
 
 http://vocaroo.com/?media=vUUIQPvWMBewGua8P

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A mentira dos cortesões

Você, língua de fogo, lábios carmim
em boca obscena
a murmurar indecências
dessas que me contaminam.

Eu, labareda incandescente
infectado pelo instinto e desejo
daquilo que é prenda e se esconde
sob o seu justo vestido vermelho

Nós, a rudeza dos seres ordinários,
que se perdem em arco-íris insensível,
e que se esvai das cores que avivam o amor.
Nada mais que viajantes insólitos

[nos delírios das rotas que nos são doentes]

Músculos, artérias e o sangue bombeado
pelo esforço e nos beijos sucumbidos
em bocas salivadas de libido, mas que hoje,
lamentam aquilo que se supôs legado

[a paixão que jamais deveria fenecer]

Enfim, somos o que se repudia, mentiras,
passageiros ensandecidos e vulgares
a viver de um passado que nos devora
quando nos vê extenuados e possuídos

[E o pior, nos chamando de “meu amor”]


Copirraiti 01Mai2011
Véio China®

domingo, 24 de abril de 2011

Os olhos de Irie

Não, não me olhes assim
Me furtam do mundo

Estes teus olhos verdes

Que luzem endiabrados
Feito tardes ensolaradas
Onde caço esmeraldas

Não, não me fites assim
Pois desnuda-me por completo

E eu sinto vergonha

Não de você e nem do meu corpo
Mas da insistência do olhar que cravas em mim
Sem eximir-me da veleidade de desbravá-lo


Copirraiti Abr2011
Véio China©

Homenagem a Iriene Borges e ao enigmatismo do seu olhar.
Abraços, Irie!

Portas ( Para Olga)

Portas estão sempre a me fitar
E no namoro eterno desvendo
Cada um dos tons do seu bater

Uns batem forte e ressoam a saudade
Que se despede num rangido triste
Desses que não se consegue evitar

Outros, sussurram meigos nas horas imprevistas
Pois as portas entreabertas, mesmo que doloridas
Perpetuam na eterna pergunta do pra que vieram

Contudo, apesar das lacerações, portas são  portas  
Madeiras que cedem à esperança no comando das mãos
Cientes apenas de como abrem e quando se fecham

No infindável calejado das expectativas


Copirraiti Abr2011
Véio China®

quarta-feira, 30 de março de 2011

Suturas


Há coisas que não quero falar
E deixo adormecer
Com a mesma sonolência de um cão vadio
Que indolente me espreita da soleira da porta
Parecendo tudo saber...

Há coisas que não quero falar
Desse meu jeito rude e entediado
Navegante abstrato das coisas cotidianas
Plantado e ceifado como a flor da cana
Num universo onde nem pretendia estar

Há coisas que não quero falar
Não há o porquê decifrar entrelinhas
E nem saber se há verdades ou mentiras
Talvez os lábios e o dom da minha fala
Exilaram as lágrimas que se converteram ao pó

Há coisas que não quero falar
Prum mundo de retalhos, agulhas e fios de nylon
Pra quem me ouvisse,  mas não há mais a voz
Não há mais nada, apenas o cão que vejo adormecer
Sem me sorrir como na noite passada.


Copirraiti Mar2011
Véio China®

domingo, 6 de março de 2011

O aprendiz de Camões.

Dormes com cem  reis na barriga
E de tua boca cheia dos dezoito
Cachorros que latem
Nada se ouve se não falácias

 Esqueças de vez o Aurélio e Houaiss
Uses moderadamente como fonte de consulta
E jamais para o embuste a que te serves:
Obsoletas, enfadonhas e eruditas charadas

Poeta, se Camões  tu fosses
Fatalmente odiarias dicionários
Pois saberias que a erudição feneceu no tempo
Cedendo espaço para um mundo modernizado

Contudo, continuas tão antiquado que não percebes
Que marionetes manipuladas sapateiam e aplaudem
As teclas  mofodas de naftalina com que escreves
Afinal, narcisista, te quedas àqueles que te ovacionem

 Portanto meu caro aprendiz camoniano
Não te iludas com o afago paulistano
Ou os braços abertos e o tapinha na costa
Do Cristo Redentor e do povo carioca

Toma teu prumo e te atina
Que para a língua portuguesa
Mais que lagostas e suco de framboesa
O povo quer arroz, feijão e farofa à mesa


Copirraiti 2011Mar
Véio China®

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Masoquismo

Passados
Não se extinguem à meia noite
Mas na simplicidade
da água saudade
Que o piscar dos olhos propricia

E o passado também se lê no amor que morre
Por vezes assassinado de tão necessário
Que tê-lo sepulto em cova profunda
Abaixo do concreto das todas emoções
Torna-se vital questão de sobrevivência

Contudo, humano que somos
Não esperemos que após fenecido
O amor alce vôo à galáxias distantes
Ou asse em alumínio e fogo brando
Das azeitadas panelas do diabo

Todavia impõe o imprevisível bom senso
Fazer-nos retornar ao fim do terceiro dia
À caça de lazaras fendas nos veios do cimento
Pois comum a este nobre e profano sentimento
É ressuscitar-nos para outros tantos sofrimentos


Copirraiti 2011Fev
Veio China ®

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Dolo

Armado
Das dúvidas diárias
Inverso
Aos contos das fadas
Transformado
Em cimento das obras
A sepultar
Legitimidades de um dia


Copirraiti Fev2011
Véio China©

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A insustentável leveza do ser (By Véio China)

Alvidrado

Sinto-me leve
fração pintalgada
branco amarelada
do mais tenro algodoal

Tudo me seria alvissareiro

Se não fosse me ver plantado
Em base de ribanceira de oceano
- Me tonteio com a altura -
E certamente o tombo me afoga

Afinal, pra quê tanta leveza?
Para não ver o meu fim melhor seria
Não ser a sensível rama de algodão
Mas sim doze begônias de chumbo

Óh não! Não! Por favor, não!
Ao acaso estarão conjecturando
O mesmo insensato  pesadelo
Que há após o encanto do sonho?

Estanquem o oxigênio em vossos pulmões
Travem o excesso de ar no tubo traqueal
Serrem os dentes e selem o contorno labial
Assim ventania não vaza na cavidade bucal

Clemência é o que vos peço!
Apesar de todas as ansiedades
Que lhes imputam as vontades
De me verem plainar num tango 

Não, definitivamente não me assoprem
Quedo-me à inexorável ação do vento
Arrependo-me, é claro, ontem e hoje
De estar plantado como algodão-da-praia

Afinal, não sou tão insustentável assim.
E o chão que deveras me guarda
São as mais lisas pedras da costa
Que sorriem, pois sabem do meu fim


Copirraiti Fev2011
Véio China®

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Caixão e Vela Preta

Ah seu moço eu me lembro das sete moças
Com flores nos cabelos, prometidas donzelas
Fecundadas por mim
Um viajante de boa aparência e muita falação

Pra que fui mexer com poderosos donos de latifúndios?
Se aperrearam e silibaram “esses” entre os dentes
Foi então que aprendi; Com nordestino não se mexe,
Inda mais coronéis abufelados tal guizo de cascavéis

Às custas dos meus sorrisos e alguns bons trocados
Fui logo avisado pela quenga do Beréu do Aleijado
“Te acunha rapaz” Que teu couro ta à prêmio!”
Que nem gado selado, eu era um sujeito marcado

À troco de três ternos riscados
E dum relógio Ômega falsificado
Eu vexado sumi pra caixa prego
Touro jamais deveria ser castrado

Sete longos meses se passaram
E da quenga que confiava recebi uma carta:
A filha de coronel Fogaça embuchara
Portanto prematura nasceu a minha cria

Era uma linda menina de olhos negros iguais aos meus
Mas não a conhecia, pois só fugia, dia e noite, noite e dia
Depois disso minha vida foi tomada de silêncio e estranhei
Pois a quenga jamais respondeu as cartas que mandei

E foi assim numa tarde de tempestade alucinante
Diante a fúria dos raios e trovões dum lugar distante
Que a bala do jagunço me alcançou
O corpo combaliu e não mais tive como fugir

........................................


Sete horas do mês sete dezessete era o dia
Sete velas de três de quartos, sete chamas em sacristia
O riso do diabo faz tremer Virgem Maria
Minas Gerais velava o meu corpo indigente



Copirraiti Ago2010 – Jan2011
Véio China©

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Sahara

Hoje me vi em tuas retinas. E como super herói das revistas em quadrinhos impregnei-me do raso dos teus olhos transmutando-me em duas gotas reluzentes que evitavam  à todo custo desabar no precipício.
Precipício que construí, e me corrói permeando-me em todos os desamores como as sílabas mortas que silenciam ante incautas folhas dum virgem papel.

Negligente, pois tão fácil era te amar, mas não consegui, privando-me assim das coerências e no notar à tempo o quão árido havia me tornado. E agora debato-me, toco-me nas peles e o tato acaricia o álgido capitão empoeirado,  algo bruto e insensível, que, valeu-se do corpo fechado, mas que agora olha para o passado, e vê emocionado as gotas reluzentes que tentam não desmoronar diante de mais-um-sem-fim


Porém o peso dessas lágrimas se fez sentir e não mais me sustentei.
E eu, sem saída escorri-me por tuas faces numa dor tão víscera e definitiva  que prostrei-me diante a possibilidade da morte. Não da morte perene, da carne, desses espíritos que descarnam e se entrincheiram nas fúnebres alamedas dos cemitérios. Não, esta não, mas sim no da morte da alma, um passamento repleto de dores e melancolias nos abismos que se edificaram em mim.
Sim, foi o falecimento da minha desconstrução, o derradeiro ato dum atirador covarde que fugiu ao temer as emoções, essas que revivem intensas e com a mesma força dum sorriso que ofertamos ao primeiro amor.

Contudo, após desaguar-me  sorriste-me cintilante e tímida, pois sei;  este sorriso jamais foi teu, mas sim da galhardia guerreira que se queda ao inexorável fim.

Portanto meu amor, hoje não me houve forma outra se não  chorar-te a olho nu num compartilhar teares enredados pelas tristezas. E me foram lágrimas honestas apesar de retraídas, aliás, mais que retraídas; foram lágrimas envergonhadas que não se ocultaram para ti.

- “Quites” - Foi a resposta que me destes num murmúrio e numa feição tão desolada quanto a minha.

Depois disso sorriu, beijou-me as faces como beijaria as de um amigo próximo, e partiu para sempre.


Copirraiti Dez2010
Veio China ©

domingo, 26 de dezembro de 2010

Monólogo - À moda antiga -

Querida.

Queria dar-te todas as flores, todos os amores e as mais de mil rimas quais desdenham os insensíveis: “Poeta que rima flor com amor não se leva a sério, é um pavor” – Eles dizem ao sorrir zombeteiros - Portanto minha flor, exposto ao escárnio não espere de mim fartas palavras de cunho emocional. Poupe-me de conotá-las com o amor, pois seria o teu fim, o meu fim.

Além do mais preciso atualizar-me e ser o outro lado da moeda destes sujeitos descolados: Quem sabe um poeta visionário a levar-te em caudas de cometas e a fazer-te presente as estrelas, os sóis e as luas?
Ah sim! Pouco importaria que elas estejam em estado decrépito ou em fase minguante.

Evidente, elas são partes de um complexo quebra-cabeça num universo quântico habitado por poesia eclipsada e versos fosforescentes, preferencialmente em escalas de azul, cinza e lilás. Contudo, se é assim que me querem....assim me terão – Fantasioso -
Portanto meu amor não pense mais nisso e deixemos estas tolas bobagens de que trata o amor. Não falemos dos simbolismos e nem das flores.
Versemos, por exemplo, sobre os fenômenos que ocorrem no universo; parecem-me tão interessantes.

Veja, meu bem. Se faz importante sermos iguais a estes poetas e não perdermos as caudas dos cometas que nos levarão muito além dos pífios saberes e o parco de nossas sensibilidades. Contudo, lá chegando uma coisa eu prometo; longe das discriminações petulantes e da arrogância dos olhos que nos querem frios eu sorrirei ao mostrar-te o melhor dos meus truques; Do negro vazio de uma cartola farei surgir as mais lindas rosas vermelhas, e as te ofertarei; Flores para uma dama, como jamais deveria deixar de ser.

E então sorrirás e teus olhos cintilarão umedecidos. E eu, feliz como criança que ganha a primeira bicicleta espelhar-me-ei no motim das tuas lágrimas e te exalarei juntamente com o aroma do buquê de flores.

“Eu te amo minha flor! Serás para sempre o meu inesquecível e eterno amor” – Confessarei antes de quedar-me ao escárnio dos poetas e da poesia mor.

E esse aroma de sentimento inigualável, tragado e expelido por meus lábios num rápido sussurro se traduzirá em sentença de morte da minha fração poeta e de uma poesia tosca e desqualificada.


Copirraiti Dez2010
Véio China©

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Calendário

Cansei de olhar para estas paredes
Dolorosas e tão beges que entristecem os olhos
Cansei de tingi-las com fumaças acinzentadas
Expelidadas por meus cigarros assassinos
Cansei de te supor no jardim e ouvir tua voz
Voz que não era tua e sim de minha privação

Cansei! Simplesmente cansei

Cansei de olhar pela janela
E por entre os recortes dos vidros estilhaçados
Cansei de imaginar-te novamente em meus braços
Anestesiada de carícias e chamas que não se apagam
Cansei, nada havia senão porções de legítima saudade
Incrustada na doída melancolia dos meus fragmentos

Cansei. Cansei de presumir que era mera questão de tempo

Cansei do general entrincheirado em seus lamentos
Que não te arrebata e nem te faz faminta de nossas entranhas
Cansei da nostálgica herança deixada neste teu retrato esmaecido
Fadigado com as beges paredes e o fim dos dias em meu quarto
Cansei tanto que hoje te faço apenas um número que assinalo em Xis
Ponto de partida para uma data a ser esquecida em meu calendário


Copirraiti 2010Dez
Véio China©

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Captain my Captain

Impetuosa, a tempestade avassala o que resta
No quebranto do além mar
Diviso o horizonte e ele me confunde;
O que vislumbro é arco-íris ou cores de quimera?


Desorientado, dobro-me às terminações nervosas
Sangro lamentos e as interseções do meu tempo
Qual a finalidade de mim nessa imensidão azul?
Sem saber, amaldiçôo naquilo que me fiz sobrevivido


Não sei quem sou, apenas deixo-me levar nas ondas;
Talvez eu seja nada mais que essa velha nau solitária e à deriva
Singrando águas salubres que não me imergem e nem resgatam
A consciência perdida e nem o sujeito que um dia fui.


Copirraiti 2010Dez
Véio China©

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O dia seguinte ( E agora Tom Zé? )


E agora, Tom Zé?

A polícia subiu
O morro evacuou
O bandido sumiu

E agora, Tom Zé?

A maconha mofou
A cocaína empedrou
E a polícia levou

E agora, Tom Zé?

O olhar cisma que viu 
A mente  imaginou
O pesadêlo acordou

A Civil atirou
O Exército metralhou
Desarmado, o tráfico se mandou

Tom Zé, pra que morro?

Pra quem  morro, Tom Zé?


Copirraiti Nov2010
Véio China©

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O funeral de Aristides Narciso

O problema não esteve nas linhas
e nem nos contornos suaves do seu rosto
Não esteve no terno nem no jaracandá
da refinada urna funerária.

Se ainda fosse vivo,
provavelmente
teria xingado a todos...

Evidente, gostaria de ser enterrado
ladeado por  indiscretas rosas vermelhas,
acariciado por um duo de violinos afinados
executando Tristese, de Chopin

Contudo, nada disso ocorreu.

Foi velado, cremado,
cinzas espalhadas pelo vento...
empoeirando ramas,
turvando a visão de pacatos pardais.

Tudo deixaria de ser quimera
irrealizável se,
seu ego, ao menos,
vestisse as medidas do caixão.

Foi triste vê-lo poeira

domingo, 21 de novembro de 2010

Dominante


Eu pensei que pudesse te sorver sempre
Assim como me delicio
Com taças de Milk-Shake
De chocolate e framboesa


Eu pensei que estivesse tão disponível
Aos meus estalares dos dedos
Submissa à minha voz máscula
Totalmente Indefesa

Eu que pensei que fosse refém
À mistura explosiva de mim e você
Dou-me conta agora que lhe perdi
Para ninguém, só à minha rudeza

Copirraiti 2010Nov
Veio China©



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O preço da poesia


Teu temperamento de mulher
Taciturna
Esnoba-me com toda a classe
Arraigada nos teus dotes de bens
Saiba; Não preciso da tua grana
Nem do apê em Copacabana
Pois para mim basta os amigos
Que sem que saibas os destinos
Me são mais palpáveis que tu

Portanto, com os dividendo das aplicações
Compre esquadrias douradas
Importadas da França
E aproveite e emoldure num quadro
Os teus títulos das muitas  honrarias
De ti nada mais necessito
Nem de frases apaixonadas e mentirosas
Muito menos deste olhar de devassidão
Que me consome como cadência morta

Pois agora é a hora e não me haverá compaixão
Por teus lábios cálidos e de tons carmesins
Nem à tua prepotência reles e vulgar
De não veres em mim aquilo que sou;
Um tesouro - O poeta para o verdadeiro amor -

E se for para ser assim, então saibas!
Para mim tanto fez e tanto faz
Pois com este teu silêncio que se crava no olhar
É que verás ir-me embora, agora - Tudo bem?
Aviso-te porém; Levo além das lembranças tantas

A mais linda chave de prata junto da Mercedes Benz

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Borboletas & Cristais

Estar ausente não torna imune a dor

Pois perturba-me seja o que motivo for
Travestindo-se em míserável zombador
Repercutiu nas paredes do teu cérebro
Raiado nos olhos que pouco cerravam


Sim, sei das  insones e solitárias madrugadas

Não ignoro as bebidas e tudo que te ocorria
Notívago guardando sono para clarear do dia
Em manhãs que flagravam o ocaso e olheiras
Dum vampiro frágil e falto de laços de sangue


Pois maldito seja este que sobrevivendo

Recusou extripar teus braços e as pernas
Um ser abstrato que não te quis pedaços
Mas que não te flertou com outros olhos
Senão aquele do terror que te propiciava


Assim, desditoso seja o que roubou a vida de filme inanimado

Refletiu insânia nos olhos de um sujeito inquieto e amargurado
Colidindo a infâmia dos fatos no bailado do teatro dos dedos
Sucumbidos ao pragmático romantismo da fina taça de cristal
Onde a embriaguez do vinho e diversas capsulas tarjas negras

Foram as sedutoras borboletas valsando suicídio na reta final

Copirraiti18Out2010
Véio China©

*(Em memória de um amigo 18/10/2010)

sábado, 9 de outubro de 2010

Paralelos



Quando olho para a linha do horizonte
Pressinto-me convergido ao tudo
É como se os deuses eu avistasse
Escrevendo vicissitudes
Nas ininteligíveis linhas do escuro:
Passado, Presente e as quimeras do Futuro
É ali que estou, é ali que me sinto
Composto em minha sina

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Todas estações - Um círculo vicioso -


Quisera eu vislumbrar o futuro
E no dom da virtude deslumbrante
Entender-me às previsíveis estações
Como um sorriso de flora Primavera
Exalando olor das  pétalas aveludadas
Em vivas tonalidades, natura aquarela

Mas vida não é unicamente tons e nem flores
Assim é possível que mareje os olhos e chore
Pois não sou somente  céu azul e nuvens alvas
Sou denso, enegrecido, tempestades de Verão
Que poderão fazer expulsar de mim os suores
Prantos amaros como as dores de finda paixão

Porém também haverá o meu tempo da razão
E daquilo que não foi feliz  far-me-ei o Outono
Folhas secas em calçadas sem dono, sem rumo
Desunidas pelo murmúrio das queixas do vento
Apontando em mim  crassos erros de percurso
Morte de minha tola poesia repleta de lamentos

Agora, cansado de ser flor, poeta sem ser poesia
Uno meus vasos vazios à famigerada melancolia
Sobrevivendo ao Inverno e às minhas mãos frias
Embriagado nos encorpados vinhos enrubescidos
Cerzindo o embotado de todos meus desenganos
Nas novas fantasias de amor em outra Primavera

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Devoluto

Fingir que não dói,
que não corrói,
que não destrói

Fingir sorrisos certos,
lábios abertos,
está tudo bem, tudo certo

Fingir que não me foi derradeiro
Aquele dia primeiro,
amplo e tão verdadeiro
Mas que hoje me amarga a lembrança
fazendo ranger os dentes d"alma

E eu, impotente urjo esquecer o instante
em que minha alma na tua penetrou
Tentando sobreviver à rubra melancolia
Da sentença que aqui ainda reverbera:

- Ei! acalma-te, é bela a tua alma!
Jamais ficaria com aquilo que não é meu
Há de ter de volta tudo o que é teu -

E assim foi
no escarnio dum abutre sorriso,
que o teu braço se estendeu
e na mão, pela linha da vida
os lábios a minha alma assoprou

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Fênix




Voe
Pássaro da nostalgia
Voe e liberte desse peito
Os enegrecidos acordes
Do mais obscuro desencanto

Voe
Pássaro da agonia
Até fundir-se ao pesar das nuvens
Cicatrizar cinzas feridas
Das fendas que não curei

Voe
Pássaro da alforria
E rase num mergulho insano
Malogrando o pranto convulsivo
Dessa tristeza em que vivo
E não me desfaço

domingo, 19 de setembro de 2010

O furto da poesia

- Ah, és tão insensível! Jamais serás como os poetas!
 Disse-me susceptível, onde gotículas de cristais arraigavam seu olhar
E eu, apenas malicioso flertava com o seu estupendo par de coxas
Que se escondia sob o puro linho dum majestoso vestido negro

-Não, não sou e jamais serei poesia - Respondi com olhos de cascaveis-
Ser poeta era fazer magias, era iludir com truques,
E isso eu jamais faria; não sabia mentir
Justifiquei tentando roubar-lhe um beijo como se fosse ao acaso

- Então terás que mentir por mim! Ou  perder-me-a agora! - Exclamou decidida –
 Estranhei- Ela estava tão distante -
O tempo estancou quando cravei os seus olhos reluzindo verdades;
Igualmente a mim, ela também não sabia fingir

Lancei-me no espaço com fúria e desespero
Procurava palavras, vasculhava sentimentos, os meus ou quaisquer outros
- Não vou perder-te com palavras e nem para borboletas de vidro - Arrisquei
Porém, travei; não havia poesia ali, e sem poesia era impossível continuar.

-Pare, baby! Sei que tentarás por toda uma vida, mas sei que não será agora!
-O que dizes é pouco, tentas ser poeta,mas não dizes o que preciso; poesia!
Replicou secando lágrimas despencadas sob o negrume dum céu desestrelado
E assim foi e assim a perdi, privava-me do amor, não era mágico e nem poeta

E há muito ela partiu.

E hoje, varado mas madrugadas afligem-me as profundas olheiras
Que adormecem melancólicas e somente quando se faz alto o sol
Pois além da insônia acompanha-me também a nostálgica quimera:
De ser-lhe-a poesia que necessita, aquela da noite que  me furtou.
,
Ah! Apenas dilacerar-me não poderia gerar poesia? - Questiono -
Olho-me para dentro e dói , dor dura que não extrai qualquer linha
Ainda penso em frases e recordo-me daquela; a borboleta de vidro
Que persiste revoando minha mente, reluzente, colorida, sem poesia

sábado, 18 de setembro de 2010

Laceração

O chicote estala em minha imaginação
Na ponta
algo perfurante e metálico
Penetra-me as carnes, revolve entranhas
E toca-me quase a sombra da alma.
Há algo que possa me fazer sorrir?

Rios transformados em desertos
Lágrimas convertidas ao pó
Nuvens empoeiradas despencando dos olhos:
Ouro, amores,  dissabores
Virgens, puritanas, santas devassas
Há alguém que possa me fazer feliz?


Parido de ato lascivo
Feto gestado em nascente límpida e casta
Hoje não me há credo ou devoção a sei la o que
Não há anjo ou diabo que resida em mim
Se foi o deslumbre e o lirismo do homem das negridões
E o lamento de um sorver vida que aos poucos se esvai

Haverá outra vida para ser vivida?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Obsessão

Na festa
Dentro dum smoking
De fino trato
[óbvio, alugado]
Fez-me provar todo descaso
Dos teus rudes olhos negros

Que, altivos e voluntários
Avaliam a minha presença
Como de  reles convidado
Lembrado às últimas horas
E provavelmente
No fortuito acaso

E para mim
[sim, o teu bibelô palhaço]
Diante do escárnio deste riso diabo
Nada mais me resta a não ser
Relembrar-te as luxúrias devassas
E os murmúrios do felino orgasmo

E eu, agora o tolo fã ensandecido
Aplaudo-te no dolo dos pecados
Sem resgatar-me dos retalhos
Da ilusão de um passado
O qual percebo agora
Cruelmente apagado

terça-feira, 31 de agosto de 2010

BIhete para meu fantasma

Para meu fantasma
Deixo somente um recado
Vade retro velho safado
Não me olhes de espreita
Nem tinjas as penas do alado
Pois aqui estou e tudo se ajeita
Eis que.....
Longe de ser o rei
No pobre coitado
Prometo, não me velarei

Então deixe-me aqui
Olhos, pele e ossos
Até que tudo se desintegre
Longe do moço que um dia fui
E aquém daquilo que me tornei
[Apenas um velho humorado]
Porém, se quiseres a minha alma
Eu te darei sem dó ou compaixão
Te ponhas na estrada que hás de me encontrar
Nas brasas insanas do diabo que te carregue

Óh Aurélio!

Óh admirável homem da irrepreensível gramática!
Trazemos-te em coração companheiro
Resumes-te para nós no marco de sábia erudição
Feudal senhor da obra minudenciada
Permeada de vidrilhos incandescentes
Ao nos levar triunfantes aos caminhos da perfeição

Somos-te devedores solidários
Devemos-te as exuberâncias dos termos grafados
Os “óhs” de admiração que despegados auferimos
Exclamados por amigos que nos idolatram 
Sem ti, Aurélio, seríamos nada mais que meros mortais
Contigo, Aurélio, literatos homo sapiens de nobre estirpe

Outrossim, apropriados de tua sabedoria
Teríamos Camõesa  nos lamber as botas
Coisas inalcançáveis aos ignorante de plantão 
Escória reles,  inculta,  e semi-analfabeta
Estúpidos párias que nas aberturas espasmódicas proximais ao tubo digestivo
A nos pichar de eruditos como fôssemos sobejados retalhos do século XVI

(Mal sabem eles, Aurélio: que é só ter um PeCe para ler teu dicionário On-line)

Relicário


Hoje te reencontro à meia luz
E sob os meus dedos enrugados
Que nos escombros do passado
Remexem-te lenta e docilmente
Na velha caixa de madeira de lei

E neste momento e bem mais que ontem
Flagro-te na alma da mulher apaixonada
Que murmura em manuscritos delicados
Misturados ao mais fino papel perfumado
Do teu inesquecível Chanel número cinco

E me apego neste peso do passado
Onde tudo me ofertaste, e recusei
No pouco sonho que te abrasavas
Pois no reino de fadas encantadas
Querias ser rainha e eu fosse o rei

Mas assim não foi e assim confesso
Velho, tolo e rudemente amargurado
Que à cômoda do quarto penumbrado
Revê as duras saudades transbordadas
Num melancólico relicário abandonado

O Cangaceiro devotado

Ao longe a nuvem de poeira se levanta
E em desmedida desabalada
Engolindo o pó da estrada
O cavalo traz o homem e na algibeira
A recompensa das três mortes contratadas

Gildézio Zeferino é seu nome de batismo
Sangue ruim desde menino
Atarracado e olhar de escorpião
E igualzinho à Ferreira Virgulino
Que em vida fez da morte a profissão

Vulgarmente alcunhado
De “ Devotado Lampião”
Um cangaceiro pós-moderno
Que sem pedir adiantamento ou contrato assinado
Executa o  serviço com presteza e exatidão

Mas uma coisa em Zeferino há de ser admirada:
O seu respeito e devoção à  Virgem Maria
E nisso o seu Padim Pade Ciço há dar o testemunho
Que às seis em ponto, no badalar dos sinos e dobrar joelhos
Zeferin roga com os olhos bem abertos e desconfiados
O perdão à Nossa Senhora pruma vida de tantos assassinatos

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Solitude

Solitude
Do alto da montanha e de onde estou
Não vejo nada que não seja o vale encantado
Não percebo a morte em pêsames bocejados
E nem o desvario dos homens engravatados

Do alto da montanha
E bem longe do concreto
Dos tolos hipócritas e dos desafetos
Me lambuzo no sumo dos morangos silvestres

Não preciso de carne
Não me fazem falta as prostitutas
Nem me satisfazem as inverdades
Que se acreditam ou as menos astutas
Enfim aqui no cimo nada me falta

Toco as nuvens com as pontas dos dedos
Sorvo o ar do capim mais grosseiro
E durmo tranqüilo contando estrelas
Desprendido do ator, cingindo universos,
Solidificado na paz

domingo, 29 de agosto de 2010

Desalento

O espelho que me olha intimida-me a carcaça:
Muitas vezes flagra-me permutando peles que nem cobra,
Afrontando-me na nefasta idolatria que nutro ao logro
Eu não consigo fugir, e ele, insatisfeito questiona-me
Quanta vezes sepulta o que hoje ressuscita? -
Infindáveis vezes – Diz-me o reflexo antecipando-se a mim,
Estilhaçando-me com suas verdades.


Porém o vento assopra-me e faz com que siga em frente
E eu vou mas evito olhar para trás.
Contudo, seduzido eu volto e refaço a linha da minha vida
Poderá um míope-astigmata distinguir a reta antes que se torne curva?
Assevero-me nas vistas e constato os pífios caminhos que aniquilei
A visão não se encontra tão danificada que não se dê conta
Das indiferenças com as quais sobrevivi.


Portanto algo não se situa bem neste ambiente de devastação
Então dou por falta das lágrimas que minha lâmina decepou
E visto-me dum aspecto melancólico de quem não se cabe à forma
Um sorriso cego e triste de quem não mais vê o sol dos dias carmim.
Uma agonia sem fim ver-me ali refém destas coisas que não me são gratas
Desfazendo sob o enrugado dos dedos os nós das amarras perfeitas,
Destruindo as planejadas armadilhas de tudo que eu julgava íntegro


Contudo a cada dia um sorriso há a menos em minha vida,
Eu precisava apenas ter compreendido todas as dez linhas que li.

Procuras

Procuro-me
Ache-me
Preciso ser encontrado
Não sob o sol
Pois me desagua o suor
E nem sob a lua
No clarão nem sei o que digo

Encontre-me mais embaixo
Nas profundezas
Onde torce a raiz da tamareira
Não  questione-me agora
Pois sou tão insano quanto o  trânsito
Da caótica cidade de  São Paulo

Procure-me
Não desista de mim
Talvez eu seja o arlequim
As cores das tintas nanquim
Ou mesmo um amigo de lata
Tal qual no Mágico de Oz

E se mesmo assim
Se não me achar
Procure-me em alguma mesa de bar
Não será difícil me encontrar
Em meio aos brindes dos copos
E da anarquia juvenil

E achando-me ali
Há de me flagrar  quieto
Bebendo em silêncio
E sem companhia
Num emaranhado de dúvidas
Afogado em nostalgias

Apocalypse Now

Sábia, a natureza fundiu os oceanos
numa única e inexorável imensidão azul,
fazendo desaparecer outras tonalidades
que um dia encantaram o astronauta.

Na superfície bilhões de corpos e tecnologias
bailavam isentos de vida
junto às ondas e aos ventos dos mares
como se pares fossem numa valsa de Strauss

Ele olhou para toda aquela devastação
e diante do apocalipse iminente
lavou as mãos como Pôncio Pilatos

-Tanta inteligência pra que?
perguntou-se num riso
miseravelmente incompreensível e imortal.

Despedaçado

Sou a dor
o prego no pé
o espinho nos olhos,
Sou a adaga no coração
Sou os batimentos
Os infindos amores,
e todos dissabores,
O mais louco dos atores
que sobrevivem ao alvorecer

E assim eu vivo,
respiro, suspiro
e choro
E aborto os afetos
de todos meus medos
E me surro naquilo que expurgo
No sentido que não me toca
Do cheiro de flor que não sinto
através do calvário que caminho

Deixem-me então
sangrar no próprio corte
Expor-me à toda sorte
Na esperança que o último momento
me seja consciente,
que me prume pro norte
que me vista de forte
diante o riso, da dor
e do bafejo da morte

Lúgubre



Transpiram os lírios nas covas profundas
onde em terras fofas e revoltas
os vermes fartar-se-ão diante o inesperado  banquete
Na cerimônia fúnebre, sob o escaldante sol do meio dia,
e a pouca distância dali
sabiás gorjeiam em cerejeiras de flores alvas,
que tentam esconder de nós
o simbolismo do intransponível muro da morte.

Nos galhos, sábios, os solitários pássaros
persistem num canto triste à medida que tudo assistem
– Sabem que o sussurro da morte somente a eles é dado ouvir –
Mas não se prendem aos murmúrios e nem à saudade,
e que as  linhas dos traços e a ausência da presença,
são meras lembranças a habitar o peito do homem
até que um dia se turvem
e se misturem  às imagens do tempo.

Sacramentado,  na terra bate-se a última pá
sob a indiferença e o displicente escarro do coveiro
- Se faz  hora de retornarmos para nossas casas -
E nesse curto trajeto de passos lentos e feições austeras
Por entre as alamedas que se cruzam fúnebres
reverenciaremos a certeza do nosso maior legado;
- Haverá um tempo que estes mesmos pássaros
gorjearão para nós no merecido dia de nossa paz -